-Então painho, me deixa ir pro aniversário do meu amigo lá da saaaala... - e sorri encantadoramente para o pai, com uns olhinhos que só vendo!
Esse feitiço basta para o pai, ultrapassando a barreira que é o coração paterno, ou melhor, a angústia por ele saboreada. Para um com razões- de morte, estupro, seqüestro, roubo e abordagem, nessa ordem de pensamentos que permeiam a mente da maioria dos homens que têm uma filha e/ou têm acesso também a qualquer veículo de informação – mesmo que seja uma conversa xeretada no busão- e acessos de fúria com pedidos inconvenientes. Para a outra: rações que não passam de produtos comercializados pela indústria sensacionalista dos meios de comunicação em massa e que têm a meta de no fim do mês exponenciar a quantidade de consumidores das suas rações alimentadoras do medo- e das manchetes, claro!
Retrospectivando: esse feitiço é o suficiente para o pai perguntar um “quem vai” paridor de dúvidas a respeito do potencial do encanto.
-Ahh! Todo mundo lá da sala! Hehehe
-Todo mundo quem? – repergunta o pai num tom acusador
-Pai, você não conhece!
-Onde vai ser?
-Num lugar bem massa e que eu posso dançar! Vai pai, faz tanto tempo que eu não danço... – a menina dribla com um eufemismo algo que provavelmente faria toda a jogada descer de uma cachoeira, arrastada pelas Cataratas do Iguaçu: a simples menção da palavra B-O-A-T-E.
-Onde vai ser, Ana Cláudia?
-Em Boa Viagem, pai.
As palavras “pode” e “ir” deslizam pelos espaços entre os dentes à mostra por um sorriso largo e pairam na frente da menina-moça. A desgostosa música que sai do carrinho de um vendedor de CDs pirata: pára. A intrometida fuligem cuspida pelos veículos: pára. O tempo: não pára. É como se tudo tivesse sido congelado feito o mormaço recifense derrete a cara do velho pai que não quer ser (um) ultrapassado - será que ele é de cera?
Ela então desperta -graças ao galo da madrugada, que foi a imagem do pai rabiscada pela filha- numa folha qualquer, desenhado um sol amarelo- quando ele acrescentou (um olhar maroto acompanhando, assim como o arroz acompanha qualquer comida que não tenha macarrão): - Agora tome cuidado com os tubarões!
A filha riu junto com o pai, enlaçado em seu abraço, mas o pai não lia a lógica daquela cabeça (de dourada cobertura capilar) a qual agora beijava.
Eis as premissas encadeadas:
Tubarão come peixão.
Eu sou um peixão.
Alguém pode ser o tubarão
Qual terá sido a conclusão?