SOLTANDO O VERBO

Sou o recheio
A essência do bolo sou eu quem assa
Sem receio de me queimar

domingo, 27 de janeiro de 2013

Você ganha a vida com o quê?


Não pude prestar atenção no mendigo da esquina. Nem catar trocados para o pequeno que limpou o pára-brisa. Não posso dar a vez para a pessoa do outro carro.Ou vou me atrasar para o trabalho.
Por falar nisso, lá vai o chefe. Está à beira de um infarte! Problemas com outro embarque. As pessoas que o amam, ele não escuta. Sua vida é labuta, labuta e labuta. E se a vida é curta, é curta, é curta. Quem sou eu pra lhe dizer?
Não pude prestar atenção no mendingo da esquina. Nem catar trocados para o pequeno que limpou o pára-brisa. Não posso dar a vez para a pessoa do outro carro. Ou vou me atrasar para o trabalho.
O dono daquela fábrica tem dinheiro até a ponta do nariz. Pobre coitado, não me parece feliz. Grosso e mal educado, como pode alguém tão instruído parecer um cavalo? Nem eu nem os outros que se assustam sabe. Mas em seu íntimo um sentimento lhe invade: o de provar pra num-sei-quem que é capaz de num-sei-quê-lá. Ele é um batalhador. E pra batalhar, há que ferir-se. Seu dinheiro e prestígio e angústia e noites mal dormidas, longe de esposa e filhos vale o sofrimento. Muitos queriam estar no lugar dele.
Não pude prestar atenção no mendingo da esquina. Nem catar trocados para o pequeno que limpou o pára-brisa. Nem parar para o pedestre passar. Eu ia me atrasar para o trabalho. Quando, apressada, cruzei o sinal vermelho. E um caminhão me acertou em cheio. Como foi rápido! Se eu soubesse, não teria engolido o café! Agora no túmulo, não será eu quem contará a moral da memória, senão ossos ressequidos, carne pútrida, matéria fétida, carcaça.

Perdemos a vida, enquanto tentamos ganhá-la.
APRECIEM SEM MODERAÇÃO!