SOLTANDO O VERBO

Sou o recheio
A essência do bolo sou eu quem assa
Sem receio de me queimar

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Porque um conto não vale nem um conto do que realmente acontece

Saiu de casa, bem dormida, bem alimentada – nutrida de refeição e de energia.

Energia das calorias do alimento e energia que o despertar de um sono revitalizador traz consigo: dando tanta vida à vida, que esta consegue se sobrepor às possíveis dores; energia que se manifesta através da boa disposição.

Boa disposição do corpo e do espírito.

O estado -de– espírito está disposto sob forma de um prisma refletor das cores componentes do arco-íris, parece até que realmente viu um arco-íris! É o estado – de – divina graça, até os menos supersticiosos diriam que ela “acordou com o pé direito”, a moleca estava em estupenda harmonia. As armas atiradoras das balas semanais? Tirou de letra! E com estas letras rabiscou (na testa – bem tipo, “tá na cara”) a palavra: S-A-T- I-S-F-A-Ç-Ã-O
Afinal, ela teve razão para isso. Pois fim aos compridos, trabalhosos, exaustivos deveres e agora só restou o dever cumprido.

Prosseguindo, a gracinha segue seu caminho, não em direção à luz no fim do túnel, porque há luz por todo lado (o sol estava confortavelmente radiante, os raios tocavam-na transmitindo uma sensação acolhedora que “tomava conta do ar” – isto exponenciou o bom humor dela), mas em direção à luz da razão, rumava para a faculdade.

Depois de uma aula descontraída – não no sentido de divertida, mas de ter sido elástica por ter promovido uma abertura de visão- ela refaz o caminho, agora de volta, está indo de volta pra casa (pense em Relicário, de Nando Reis e Cássia Eller) ou caminho de volta pro ninho.

O caminhão, estacionado na parte oposta da calçada em que a passarinha passava, escondia um pardal – desses de rua- que estava se beneficiando da sombra do caminhão, era uma relação harmônica, comensalismo talvez, enfim: aquela relação entre a rêmora e o tubarão em que o último permanece indiferente e o outro se beneficia. O pardal cantarolou um sorriso, que pra algumas araras seria motivo de revolta (porque o cantor era um pardal), mas pra passarinha soou feito o canto do bem-te-vi, isto a admirou, ela estaria mudando - menos pena, mais pele- e sentiu-se ainda mais encantada porque deixou o mundo mais feliz (bem como a propaganda do Boticário que, por meio de uma manipulação inconsciente, manda a pessoa espalhar a beleza por aí para deixar o mundo mais feliz – que coisa tosca!).

Ao adentrar o prédio, ela exclamou um “Bom dia!” para o porteiro, para o zelador, para a babá do bebê que ela brincara, para uma vizinha que “elogiava o brinco da interlocutora da ligação telefônica sem ao menos vê-lo”, ou seja, puxava o saco- notavelmente- da receptora da mensagem (bem ao estilo do José Dias, o agregado da família do D. Casmurro); para uma moradora meio abusada (a menina preferiu imaginar que ela deveria estar com algum problema), para o cara do lado dela (marido? filho?) que não devolve o cumprimento com a mesma empolgação, para a adolescente narcisista do elevador que preferiu ficar estourando espinhas sebosas de fronte ao espelho...

Faltou fôlego pra garota quando, abruptamente, abriu a porta de casa e deu de cara com...
A bagunça. Então ela decidiu se mobilizar e limpar os móveis e o apê como um todo. Até que ela chegou no “escritório” abafado, puxou a persiana e se decepcionou.

Toda a satisfação se esvaiu, em elevadíssima velocidade de difusão, ela não estava mais “cheia de gás”, optou por deixar a bagunça de lado (assim como uma mulher optou por escutar os ensinamentos de Jesus, enquanto a irmã –Marta, acho- custava a arrumar a casa), pois logo abaixo do seu nariz um bando de irmãozinhos, seres humanos, montava uma carroça, esta puxada por um grande irmão, todos envoltos naquilo que ninguém se importa: lixo, e todos juntos se sentiam um lixo, eles não importam para a maioria –eles não são dinheiro- o sonho deles é que as pessoas os vejam como dinheiro, pra ver se tentam resgatá-los como o fazem com “dinheiro jogado fora”; catavam lixo, desesperados, aspiravam chorume feito fishes fora d’água aspiram pelo oxigênio vital. E ainda tem gente que perde tempo assistindo ao Big Brother.
Em meio a essa inversão de valores e de papeis na biosfera, a menina se perguntou como, momentos antes, pôde estar tão feliz e suddenly a situação se inverteu.

Mas ela não quer mais conseguir ser feliz convivendo com tantas injustiças, ela quer pôr cada coisa no seu lugar, e não tá falando da natureza morta dos objetos de casa; em meio a esse upside-down, a menina insiste agora em fazer um texto. Um texto que conte, ao menos um sexto, do que ela viu e não quis fingir que não viu.

Porque ela não quer que a pobreza faça parte da paisagem.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

APRECIEM SEM MODERAÇÃO!