E estavam lá, as três, sentadas na mesa daquele restaurante de Berlim, prestes a serem atendidas pelo garçom - uma gracinha, por sinal!- todas já com o cardápio em mãos, o cardápio- como de costume- continha uma tradução para o inglês; o que não ajudava muito...
- Carlinha, que é pork? Porco?
- Hum, ai, gente, sei lá... Eu sei que porco é pig, mas se é pork também eu não tenho certeza não...
- Mas tu num serve mesmo pra nada, né, Carlinha! tsc tsc – brincou a sorridente morena pernambucana, Juliana, sentada do lado oposto da mesa, Juli brincou uma brincadeira com fundo de verdade.
- Nheem, e quem foi que descobriu o significado que tava escrito na camisa que você comprou em Londres, heim?- tanto a meiguinha mineirinha com alguma mínima noção do inglês, Carlinha, quanto a outra restante; riram gargalhadas contagiantes- que foram contidas por um grupo de coroas de cara amarrada da outra mesa, coroas carregando coroas imaginárias devido aos olhares de censura por cima de narizes aduncos e empinados conjuntamente com o tronco também empinado, características de linguagem corporal relacionadas ao eu superior ao das garotas ( apesar de que isso poderia ser também uma tentativa de driblar a força da gravidade dita por José Newton: “ Se subiu, tem que descer!” e deixar os seios maiores, entendendo-se que não havia meio de aumentar as cadeiras, nem mesmo por ilusão de ótica ou silicone, portanto as cadeiras feias estavam bem escondidas em cada cadeira a qual estavam desconfortavelmente acomodadas...)Mas era a postura de superioridade mesmo.
- É que aquele “I’m easy” tava grafado com letras tão... Sedutoras... Até chegavam a ser... Suculentas?!- divagou Carlinha observando um prato flutuar nas mãos da garçonete.
As meninas foram atendidas por um garçom educado e elegante, pra ser sincera, acho até que ele caprichou ainda mais nas suas qualidades, claro, o interesse carnal (o instinto que a beleza é capaz de acender à primeira vista) era recíproco e as garotas tinham consciência de que naquela terra longínqua, elas eram espécie rara.
Depois de acordarem de sonhos um tanto indecentes, mas deliciosos, elas se deram conta que ainda não haviam escolhido o prato.
Juliana então sugeriu: - Olha, a gente tá num lugar desconhecido, uma língua desconhecida, qualquer coisa que a gente pedir vai ser estranho, vai isso mesmo!
Mas a menina-moça restante, uma alagoana, pop descolada, esbeltamente semelhante àquela sereia cantada em músicas sobre Maceió, prestes a ser pescada. O extremo oposto da alagoana que Clarice Lispector descreveu em “A hora da estrela”, Macabéa...
Elisa, portanto, teve uma idéia melhor e resolveu perguntar ao próprio garçom o que era pork, para isso, utilizou-se do pouco conhecimento de Carlinha, que asked:
- What is pork?
- Ele falou o quê, Carlinha?- Elisa indagou.
- Hã... Ele tá dizendo pork é um tipo de carne...
- Haha! Jura? – Elisa, em tom irônico, disse isso em direção ao atendente que sorriu de volta; acho que pensando no quanto foi útil.
- Tenta de novo, tenta de novo!- insistiu Juliana.
-Erm... Yes, we know. But what kind of meat? I mean... which animal?- Carlinha fez mais uma tentativa com seu inglês rudimentar.
Então, as três se sobressaltaram.
De repente, o garçom cai com estrondo no chão.
- Será que ele machucou a perna?- a voz era de Carlinha, mas as outras estavam muito entretidas, observando –abismadas- o homem fazer um gesto desenhando algo espiralado que devia sair da bunda.
Agora todos do restaurante olhavam pro rapaz e, consequentemente, pra mesa das brasileiras.
Mas não parou por aí. Mais e mais garçons foram se juntando a ele. Os demais que estavam servindo balançavam a cabeça, contrariados.
Logo, o bando de garçons começaram a soltar ruídos grotescos (não, não eram flatulências) pela boca. Um murmurava para o outro na língua materna: “Logo logo, elas vão descobrir”. Mas as meninas estavam estupefatas com aquela cena, digamos, incomum e continuaram paralisadas.
Percebendo que nada ia acontecer, um dos garçons apelou. Pegou nas costelas do outro que estava colocando a cartilagem do nariz pra cima ao som de “Oncs” do restante.
Eureka! Finalmente tudo se esclareceu para as meninas.
“Já não era sem tempo” – pensou baixo o até então porco.
-So... – soou a voz máscula do atendente.
- Why didn´t you say pork is a pig´s part?
- Cause this is my job.
??
As três gatinhas cochicharam alguma coisa; decidiram sair de lá.
Carlinha: We wouldn´t like anything, thank you.
Visivelmente contrariado o garçom se retirou. As meninas também. Saíram em fila indiana, quase como um desfile de moda. A propósito, estava acontecendo a fashion week de Berlim, elas tinham planejado dar uma passada pelo lugar...
Juli, a primeira da fila, durante a caminhada, sequer prestou atenção no que Elisa estava falando sobre cultura e conceitos sociológicos. Juli olhou pro céu e percebeu que o teto tava carregado de nuvens carregadas, vislumbrou um relâmpago que iluminou uma enorme poça de lama que tinha no caminho. Juli parou bruscamente, escapando por um triz para não terminar como uma porca, mas Elisa e Carlinha não pararam.
Como um efeito dominó, as três caíram na poça de lama.
Como é bem típico destas cenas, começou a chover.
Agora dava pra ver que havia uma placa em cima da entrada do restaurante.
Carlinha foi quem falou:
- Eita, tá escrito que hoje é a noite dos garçons- atores... Aquela grotesquidade toda foi porque era o trabalho deles encenar.
Elisa foi a próxima: - Cenar e encenar.
Juli: Sei lá...
E ficaram lá as três porquinhas. Na rua, na chuva, na fazenda.
Rindo litros -de lágrimas que não eram de crocodilo.
Trocando pratos por prantos.
O texto ficou muuuito bom, mto bem escrito, mas, do conteúdo, eu não consigo saber o que é verdade ou o que é ficção, não sei se vc participou msm na cena ou não...
ResponderExcluirMas ficou mto massa, parabéns! =D