Na época eu era caixa do
Bompreço. Ainda lembro a expressão desta cara que te fala, refletida na
balança. Tinha acabado de passar pelo leitor de código de barras a última das
três caixas de leite desnatado que faltavam para encerrar a conta. Agora, eu só
precisava saber se a cliente iria pagar com cartão ou à vista mesmo. Bom,
fiquei esperando a velha voltar do seu “momento intelectual”, pois já fazia
quase 15 minutos que ela estava a observar (escolher?) os livrinhos de bolso da
estante reservada para os livrinhos de bolso, toda entretida – provavelmente ela
deve ter achado mais um livro chato, sendo que ela considera um “achado” –
conheço esse tipo de gente.
Eu não queria atrapalhar, mas
estava ciente que na fila havia mais uns quatro clientes (lê-se impacientes) e que
no fim das contas (ao pé da letra) iria sobrar pra mim (só num sentido mesmo,
pois nunca um cliente dá a mais). Então, tratei de chamá-la (“Senhora!”)
-Ah, sim, minha filha – a velha
foi se acordando devagar de suas divagações. Ela não conseguia esconder seu ar
de entusiasmo.
E meio como quem não quer nada,
ela colocou na esteira três livrinhos. Dois bastante grossos envolviam o do
meio. Certamente, era uma tentativa de escondê-lo. Não sei por que, eu iria ver
de qualquer jeito! Não é?
Nesse momento chega uma jovenzinha,
devia ter uns 19 anos. Pela proximidade da garota com a mulher (a última prá lá
de madura), elas deveriam se conhecer a tempos.
-Sogrinha!
Mas a sogrinha parecia super
incomodada com a presença da nora, “Também, isso é hora de aparecer?”- pensei.
Justamente quando eu interrompi, Kama Sutra em mãos, “Quanta curiosidade depois
dessa idade!”
As duas se encararam. Não
consegui identificar se a mais nova estava mais surpresa, mais chocada ou com
ar de riso. Talvez tivesse as três expressões simultaneamente. A velha madura (
“pra mim, madeira”) não disse nada, mas soltou um risinho:
-hehe.
Ops...
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