Cara Daylhane, fiquei pensando sobre a sua pergunta hoje no final da aula. Acho que foi o brasilianista Alfred Stepan que disse que "A complexidade do Brasil é mais complexa do que a dos outros".
O processo
de formação societária e de institucionalização política do Brasil é
marcado pela indistinção entre o púlico e o privado e pela falta de
autonomia dos sujeitos. Desses dois elementos decorrem o clientelismo, o
patrimonialismo , o paternalismo\ autoritarismo (uma combinação bem
tupiniquim que Gilberto Freyre chamou de dominação afetiva) e , em
grande medida, o messianismo político.
Entretanto,saber disso não nos
autoriza a agir como reféns de uma lógica determinista, ou a nos
resignar diante de um destino histórico perverso. Pensar assim é
contrário a todo poder de agência e capacidade de
superação das adversididades do gênero humano. A história já deu
grandes testemunhos de sociedades que foram capazes de se aperfeiçoar,
incentivando a cultura cívica e punindo os desvios.
O nosso grande
problema é a armadilha social gerada pela falta de confiaça e descrédito
generalizado das instituições. A confiança é um recurso socialmente
valorizado extremamente valioso e difícil de ser recuperado quando é
perdido. Os
compromissos coletivos que permitem a manutenção das normas sociais vitais para
o funcionamento das instituições políticas e econômicas estão intimamente associados
aos padrões morais que legitimam essas regras.
A armadilha social se
estabelece em um ambiente no qual não existe suficiente crença no respeito às
convenções estabelecidas, portanto, o ato de não cooperar ( de transgredir) passa a ser visto
pelos atores como estratégia mais racional. Isso é particularmente problemático,
pois em uma sociedade que se estabelece tal situação, mesmo os agentes
políticos que desejam cooperar são compelidos a não o fazer e burlar as normas
como estratégia de sobrevivência!
Para
quebrar com esse ciclo é necessário antes de mais nada promover a
educação cidadã e os valores que são capazes de revitalizar os sujeitos e
as instituições, resgatando-os da corrupção, do cinismo, conformismo e
maliciosidade. Seguramente fazer isso é muito complicado por que a
maior parte dos mecanismos causadores desse comportamento não podem ser
facilmente observados e tampouco mensurados. A verdade é que esse é um
desafio que transcende os limites da política partidária (já
completamente absorvida pela armadilha) e da educação convencional
(puramente escolar).
A
transformação depende das famílias, das instituições religiosas, da
sociedade civil organizada, dos grupos de amigos, das Ongs sérias
e de cada um dos homens e mulheres de boa vontade que acreditam que
podem começar a construir um país melhor para se viver no presente e um
futuro digno para seus filhos.
Por isso eu disse que tudo começa com
você. Se você não perder a capacidade de se indignar com a corrupção e
lutar para não permitir que isso faça parte de sua vida, já terá dado um
passo muito importante para interromper o ciclo vicioso da crise ética
que impede que o Brasil mostre todo o seu potencial e sirva de exemplo
para o mundo. O conhecimento e o respeito são algumas das maiores
ferramentas para operar esse "milagre". Invista neles com tenacidade e
dê a sua
parcela de contribuição para que outros possam aprender livremente (dos
livros, da história e dos homens) e ver que é possível mudar; que sim
"o Brasil tem jeito". Respeite as regras; faça o que é lícito e exija
que todos façam o mesmo.
Tudo começa com coisas simples, mas que depois
podem tomar volume e lutar contra o descalabro que presenciamos
cotidianamente. Já pensou que país você teria se, quando alguém furasse
uma fila, jogasse lixo no chão ou obtivesse qualquer vantagem indevida,
as pessoas o repreendessem com vigor e acionassem as autoridades se ele
se recusasse a respeitar as normas?!! Já imaginou alguma vez como seria
essa nação se, ao invés de tolerar a corrupção dos
líderes e fazer piada sobre isso, as pessoas começassem efetivamente a
lutar contra essa mazela, começando por si mesmas?!
Tudo começa com nós
mesmos, pois, não se faz uma República sem republicanos.
Prof. Elton Gomes
Prof. Elton Gomes

Belo texto do prof. Elton.
ResponderExcluirNão comento sempre mas visito com frequência o seu blog Dona Daylhane... atualize mais. É minha única forma de saber como vc está.
Beijokas!!