SOLTANDO O VERBO

Sou o recheio
A essência do bolo sou eu quem assa
Sem receio de me queimar

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O "jeitinho brasileiro" tem jeito?


Cara Daylhane, fiquei pensando sobre a sua pergunta hoje no final da aula. Acho que foi o brasilianista Alfred Stepan que disse que "A complexidade do Brasil é mais complexa do que a dos outros". 

O processo de formação societária e de institucionalização política do Brasil é marcado pela indistinção entre o púlico e o privado e pela falta de autonomia dos sujeitos. Desses dois elementos decorrem o clientelismo, o patrimonialismo , o paternalismo\ autoritarismo (uma combinação bem tupiniquim que Gilberto Freyre chamou de dominação afetiva) e , em grande medida, o messianismo político.

Entretanto,saber disso não nos autoriza a agir como reféns de uma lógica determinista, ou a nos  resignar diante de um destino histórico perverso. Pensar assim é contrário a todo poder de agência e capacidade de superação das adversididades do gênero humano. A história já deu grandes testemunhos de sociedades que foram capazes de se aperfeiçoar, incentivando a cultura cívica e punindo os desvios.
O nosso grande problema é a armadilha social gerada pela falta de confiaça e descrédito generalizado das instituições. A confiança é um recurso socialmente valorizado extremamente valioso e difícil de ser recuperado quando é perdido. Os compromissos coletivos que permitem a manutenção das normas sociais vitais para o funcionamento das instituições políticas e econômicas estão intimamente associados aos padrões morais que legitimam essas regras. 

A armadilha social se estabelece em um ambiente no qual não existe suficiente crença no respeito às convenções estabelecidas, portanto, o ato de não cooperar ( de transgredir) passa a ser visto pelos atores como estratégia mais racional. Isso é particularmente problemático, pois em uma sociedade que se estabelece tal situação, mesmo os agentes políticos que desejam cooperar são compelidos a não o fazer e burlar as normas como estratégia de sobrevivência!

Para quebrar com esse ciclo é necessário antes de mais nada promover a educação cidadã e os valores que são capazes de revitalizar os sujeitos e as instituições, resgatando-os da corrupção, do cinismo,  conformismo e maliciosidade. Seguramente fazer isso é muito complicado por que a maior parte dos mecanismos causadores desse comportamento não podem ser facilmente observados e tampouco mensurados. A verdade é que esse é um desafio que transcende os limites da política partidária (já completamente absorvida pela armadilha) e da educação convencional (puramente escolar). 

A transformação depende das famílias, das instituições religiosas, da sociedade civil organizada, dos grupos de amigos, das Ongs sérias e de cada um dos homens e mulheres de boa vontade que acreditam que podem começar a construir um país melhor para se viver no presente e um futuro digno para seus filhos. 

Por isso eu disse que tudo começa com você. Se você não perder a capacidade de se indignar com a corrupção e lutar para não permitir que isso faça parte de sua vida, já terá dado um passo muito importante para interromper o ciclo vicioso da crise ética que impede que o Brasil mostre todo o seu potencial e sirva de exemplo para o mundo. O conhecimento e o respeito são algumas das maiores ferramentas para operar esse "milagre". Invista neles com tenacidade e dê a sua parcela de contribuição para que outros possam aprender livremente (dos livros, da história e dos homens)  e  ver que é possível mudar; que sim "o Brasil tem jeito". Respeite as regras; faça o que é lícito e exija que todos façam o mesmo.  

Tudo começa com coisas simples, mas que depois podem tomar volume e lutar contra o descalabro que presenciamos cotidianamente. Já pensou que país você teria se, quando alguém furasse uma fila, jogasse lixo no chão ou obtivesse qualquer vantagem indevida, as pessoas o repreendessem com vigor e acionassem as autoridades se ele se recusasse a respeitar as normas?!! Já imaginou alguma vez como seria essa nação se, ao invés de  tolerar a corrupção dos líderes e fazer piada sobre isso, as pessoas começassem efetivamente a lutar contra essa mazela, começando por si mesmas?! 
Tudo começa com nós mesmos, pois, não se faz uma República sem republicanos.

Prof. Elton Gomes

Um comentário:

  1. Belo texto do prof. Elton.

    Não comento sempre mas visito com frequência o seu blog Dona Daylhane... atualize mais. É minha única forma de saber como vc está.

    Beijokas!!

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