Para uma típica família burguesa, a tal comemoração se resume à mesma rotina do natal anterior.
Primeiramente, os anfitriões da festa esmeram-se em demonstrar uma decoração ainda mais enfeitada que a dos ex-anfitriões: um entupimento de papais-noéis, sob todas os papéis, sob todas representações possíveis e imagináveis – cantor de rock, de música de nenê, dançarino, estátua, criminoso( quem já se viu invadir a casa dos outros? =P). Enfim, cria-se um clima natalino para a recepção – clima mesmo, pois se não houver um frio Nova Yorkino, a festa será uma decepção.
O motivo principal da celebração? O aniversário de 2009 anos do menino Jesus.
Se bem que, o “pobrezinho/ que nasceu em Belém” vai pro beleléu. Sempre em último plano no seu suposto dia, o “velho do saco” carrega o menino pra longe e rouba os holofotes.
Falando em holofote, os parentes finalmente começam a chegar. Após uma das duas missas que eles vão ao ano – para eles, intermináveis, por sinal- inicia-se a “noite feliz”. Vão ao encontro do Salvador, guiados –não por uma Estrela- (talvez se algum possuir uma Mercedes, quem sabe –haha), mas pelos sinais dos piscas-piscas.
Durante o caminho, o “espírito natalino” baixa nos corpos desalmados e eles decidem fazer alguma caridade, certos que vão pro céu- e de que pobre só merece ajuda uma vez no ano.
Pronto, até que o cara hospeda seu carro ao lado de outros “statusmóveis” – um mais caro que o outro – e adentra na máxima representação de ostentação. Os donos do lugar realizam uma bela saudação: “Feliz Natal!”. Já daí tem-se início a ceia, afinal os recém-chegados “engolem um discurso ensaiado”.
A ceia continua com o usual amigo-secreto. A brincadeira é o retrato da confraternização. Todo mundo lá na irmandade, esganiçando dicas difíceis de serem decifradas: “é uma pessoa que eu gosto muito”, ou então “muito especial”. Novamente, o que poderia ser um momento emocionante, propício a homenagens, revelações de admiração em que no geral não há tempo próprio para falar... tudo vira os mesmos iguais discursos ensaiados- próprios de quem fala, fala mas não tem nada a dizer.
Nada personalizado, nada que parta do coração... (isso me deixa de coração partido =/)
Na verdade, o que existe é um desespero para que passe logo e “enfim, sós”- você e o pernil. Daqui a pouco, a pressa quer também que passe rápido as despedidas pra o guloso dormir – ou comer pernas- e aí sim, um feliz natal.
Certo, depois dessa história em que menciono o ato de engolir discursos ensaiados, vou mastigar as entrelinhas, a fim de possíveis leitores não terem uma indigestão, pois eles podem ter se engasgado com alguma verdade relativa.
Primordialmente, (graças a Deus!) esse conto não conta como ocorre o natal da minha família- daí verdade relativa. Depende Tb da família, ainda que burguesa - e não estou livrando a minha cara de certas primas que acessam essa página. Quem conhece, sabe que não fui criada num meio com taaaaantos valores burgueses assim, mas não serei hipócrita em afirmar que não carrego absolutamente nada da minha classe - mesmo pq devem haver pensamentos inconscientes e que se assemelham em algum aspecto à posição da classe (não que eu seja uma menina de classe, mas...=P) Contudo, acredito ter discernimento suficiente para distinguir o que considero bom e o que não passa de conseqüências de uma sociedade essencialmente capitalista. Enfim, apenas espelhei o que ocorre em muitas mesas durante este mês e eu conheço gente assim. Você também.
Esclarecido tal aspecto, busquei apontar no texto “Natal, natal”, a realidade sem sentido em que tudo é mergulhado. Na tribo capitalista tudo mergulha na piscina de moedas de ouro do tio Patinhas –haha.
Bom (ou seria ruim?), o sistema que prevalece na atualidade desde muito tempo é o melhor inventor de todos os tempos. Tecnologias, sim. Porém, principalmente, inventor de desculpas esfarrapadas.
No capitalismo, as coisas perdem o sentido, ou seria, as coisas ganham sentido?
As comemorações, ao invés de celebrarem admiráveis relações entre as pessoas, recebem a forma simplista de consumismo e ostentação. Natal, não acalentador, mas com a frieza do comércio aquecido. Tudo bem, é “preciso saber vender” e é importante, sendo que não acho que isso deva ser posto como o principal acontecimento. Acontece que é feio dizer que o motivo real é a desculpa pra venda, daí mascaram-se os interesses. Não concordo com essa máscara.
Falando em máscara, tudo vira um carnaval de fantasias!
Páscoa vira venda de ovos de chocolate – quem pode me dizer o que representa o ovo mesmo? Qual foi a relação ilógica criada?
Dia das mães vira venda.
Dia dos namorados vira venda.
Dia dos pais vira venda.
Dia das crianças... Quem se lembra que é feriado devido à coincidência com o dia reservado para a padroeira do Brasil?
Não quero ser a radical e pregar a extinção do motor capitalista. Não tenho essa árdua pretensão e entendo que as compras do Natal põem pão na mesa de muitos irmãozinhos. Apenas gostaria de reservar alguns minutos da sua atenção a fim de refletir sobre qual dos valores deveriam ser receber mais a nossa atenção.
PS: Lembre-se que a palavra ‘valor’ contém mais de um sentido.
E abaixo ao: “Seja rico ou seja pobre/ o velhinho sempre vem”